domingo, 18 de agosto de 2013

EU E O TEMPO



Hoje eu me senti por dentro assim:
sem luz,
sem vida,
sem idade.
Hoje amanheceu dentro de mim
alguém tão triste,
cansada
e sem vaidade.

Fui procurar
por mim
num outro tempo

não esquecido
da memória.


Havia
a cidade,
 a casa,

a velha janela,
mas

eu não estava lá.

Apenas 

encontrei
enrodilhado,
entre os anéis de poeira,
rodopiantes,
 só o

 passado.

Encontrei
o ar 

saturado,
a madeira enegrecida,
lavrada pelo tempo,
nada mais,

apenas.

A vidraça escorrida
dos respingos de chuva
ressequidos
e pó.

Assim eu me senti hoje,
envelhecida
e só.





 No entanto
 cá estou:
     desenhando 
   borboletas
   nas janelas
     de meus olhos.

     No entanto
    cá estou,
   Tramando sonhos
  tecendo poemas,
 colocando
flores,
cores,
 na tela
 da janela,
  imaginada.
                                                             
Envelheço
   por fora.
Ah!
  por dentro,
no entanto,
    eu canto.
                                                             

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

FÚRIA DE VIVER

Eu estava lendo um artigo de Carpinejar, e em alguns aspectos me identifiquei.
Pensei: somos todos tão iguais de certa forma.
Ele disse que o pai o chama de Wolverine. 

Nas palavras dele: "pelo meu alto poder de cicatrização. 
Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto. Não morro de uma única vez. 
Não desisto. Não me entrego mesmo que não veja a saída. 
Quando não há porta, eu espero no escuro até ser a porta. 
A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha vontade de ver de novo a luz.
Tenho fúria de viver. Não há perda que seja total. 
Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. 
Posso permanecer sequelado, mas sei cavar a terra por dentro da terra. 
Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na literatura e sigo adiante. 
Cambalear ainda é caminhar. 
A chuva lava minha ferida e o vento seca.                                 A carne da memória se recompõe de algum jeito. 
Talvez seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro. Eu sobrevivi a tanta coisa."
E por aí vai..... 


Ele é um sobrevivente,. como eu. Como disse o meu terapeuta.
No final, ele disse não entender onde o pai enxergava as garras do Logan, e pergunta ao pai: "E as garras das mãos, pai?" E a resposta foi:
"— São as palavras, meu filho. Você se defende com a linguagem ou se agarra nela para não morrer."


Então é por isso que escrevo, eu, Vânia, ainda que mal, na minha opinião, mas escrevo. Quando se escreve, ninguém interrompe para contestar. Mesmo que leia e ache ruim, não me impede de dizer o que eu penso. Falo e pronto.
É esta fúria de viver que irrompe, quando penso já não ter mais ânimo nenhum. É esta ansiedade que me enerva, que não me deixa ficar muito tempo em triste recolhimento e rancor. É minha ânsia por claridade, que me faz cavocar (ou cavoucar, isto existe?) até achar uma saída. Não sei quantas vezes morri de desespero e ressuscitei também de pura esperança, achando que devia  tentar de novo, "pode que dê certo." Teimosa sou eu.
E sigo adiante, no ritmo das pernas que não acompanham minha fúria de viver. Cambaleando, estalando as juntas, mas caminhando, pois "Cambalear ainda é caminhar."

segunda-feira, 29 de julho de 2013

SONS DO TEMPO







Em horas quietas,
quando tudo dorme,
Ouço rumores
que me vêm de longe
E que me trazem
uma saudade enorme.

São sons de coisas tão distantes,
coisas de antes, muito antes,
de eu aprender a me entristecer.

São sons guardados na lembrança boa
de um tempo que passou... não volta mais.

É o tic-tac que jamais se cansa
de um velho relógio de parede;
São certos sons serenos da rotina,
dos meus dias distantes de menina,
dias lentos, tão lentos a passar.

É a saudade que invade 
sem aviso 
o agora,
É a memória que chega,
sem se esperar, 
sem hora.

Saudade
de uma velha cadeira de balanço, 
do embalo, do colo, do aconchego,
que não encontro mais.

Ainda ouço 
o ranger das juntas da madeira
em vai-e-vem constante
até o instante de o sono vir.

Ah! Esse som
bom
de coisas
tão antigas,

de um velho relógio
e uma cadeira traz
uma vontade
de dormir,
serena,

E pra dentro da
gente
tanta paz.

Escrito há tanto tempo que já nem sei mais quanto tempo faz...

 

terça-feira, 16 de julho de 2013

ESCRITATERAPIA




Carlos Drummond de Andrade disse ou escreveu mais ou menos assim:
Não me considero um escritor. 
Sou apenas uma pessoa que escreve. 
Que começou a fazê-lo para cuidar das necessidades da alma. 
Como uma psicoterapia sem divã."

Quando escutava um bebê chorando alto, eu pensava: Por que ele tem de berrar? Agora sei por quê.
É porque não sabem falar. Reclamar em voz baixa é impossível, pois não se comunicam ainda usando a palavra. Argumentar muito menos. Então berram. Gritos todo mundo ouve, mesmo sem entender. E alguma coisa é feita, até que se descubra o que o bebê quer e, para alívio de todos, ele se acalme.
Dizem que fui um bebê chorão. Ninguém me aguentava. Como devia ser sofrido para mim não ser compreendida.
Daí que, depois que aprendi a falar, não parei mais. Na maior parte das vezes, falava sozinha, com uma amiga inventada, uma versão mais velha, mais inteligente emocionalmente, de mim mesma. Eu gostava muito dela, pois sempre me ouvia e jamais me deixava sem resposta.
Só mais tarde descobri que ela e eu éramos a mesma pessoa.
Seu nome era Nina (não sei por que o escolhi, talvez por ser uma forma diminuta de menina).
Hoje entendo minha paixão pela palavra escrita. Ela não pode ser interrompida, a não ser por uma pausa na leitura.
O pensamento é meu divã. E de que é feito o pensamento senão de palavras que, unidas, tecem uma colcha de retalhos que compõem, numa unidade mais ou menos integrada e harmonizada, aquilo que sou.

Estive pensando em fazer algum trabalho do tipo:
A Escrita como terapia.
Formar um grupo de ajuda
para quem quiser e precisar,
como eu um dia precisei. 
Quem sabe?...

A palavra impronunciada, muitas vezes, pode ser comparada  com um pássaro a debater-se contra as vidraças na janela. Não entende, o pássaro, que a transparência do vidro possa ser uma barreira intransponível para o vôo no mundo lá fora.

domingo, 14 de julho de 2013

TERAPIA DA PALAVRA



"Escrever pode ser uma forma de descarregar a angústia e de colocar (ao menos no papel) ordem no caos do mundo interno. Porque a palavra é um instrumento terapêutico, é o grande instrumento da psicanálise(...) 
É terapia sim, e é terapia prazerosa, acessível a todos. O que, em nosso tempo, não é pouca coisa".
Trecho da crônica Literatura como Tratamento. Moacyr Scliar.


Escrever também é uma forma de pintar uma tela fazendo uso da palavra. É uma forma de descrever a beleza, deixando ao leitor a chance de, ao imaginar uma cena, criar seu próprio quadro mental, inspirado por quem escreveu. Segundo sua própria vivência e através de seu olhar e imaginação, o leitor torna-se um co-criador.
A palavra tem liquidez ou dureza. É áspera ou suave. A palavra tem cor e textura.
Ela nos expõe e também nos revela e liberta.
Guardá-la é como aprisionar o pássaro cantor que habita em nós.
Libertá-la é permitir seu vôo. É oferecer ao mundo sua canção.

  Imagem modificada por mim no fotoshop. 

sábado, 6 de julho de 2013

UNIDADE



Eu não escolho nenhum caminho,
porque o caminho limita minha direção.
Eu não caminho; vôo,
porque do alto vejo além das fronteiras
traçadas pelos homens.
Não defendo nenhuma causa,
porque assim nego e ofendo todas as outras.
Não abraço um grupo apenas,
porque assim rejeito os demais,
e me divido
e me afasto da unidade
da qual sou parte.
Assim como cada átomo do meu corpo 
faz parte do meu ser,
faço parte de tudo 
e tudo vive em mim.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

VENTO


"As vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."
Fernando Pessoa



O vento parou...
O poema parou...

O pensamento
ficou suspenso,
sem pouso,
pálido e tenso.

A palavra passou,
perdeu-se,
sem ser proferida.

E o aperto no peito
não passou...
permaneceu
em mim.

Estes dias, assim,
de mormaço
me amordaçam.

Este ar parado
paralisa o pensar,
poda a poesia
antes de florir.
.

Sou um pássaro cantor.

Na ventania.
Sem ar sufoco,
Não canto,
calo.

Prefiro o vento,
Que desnorteia,
Despenteia,
Desintegra e
Divide,
Mas me move.

Prefiro tudo,
Tempestade,
Tormenta,
A este tempo paralítico,
Apático,
Pálido- cinza,
Suspenso no ar,

Irrespirável.

Prefiro o uivo do vento 
Na fresta da janela,
Do que esse silêncio,
Do que esta espera
Por algo
Que não se sabe
E que não vem.



Escrito num desses dias estranhamente quietos, antes da chuva.
Vânia.