quinta-feira, 23 de julho de 2015

PEDRO








PEDRO

Prenome?...
Pregunta o quê?
O nome, falou o padre.
Despreocupado Pedroso,
Na premência pronunciou:
Pedro... Pedro Pedroso.
E assim Pedro se chamou.

Sem pedologia (ou pedagogia)
Como o nome predizia:
Muita pedrada levou.

Com pedregulho brincava
Num leito seco de rio,
Fingindo que era mar.

Nascido entre as pedras,
Brincando com pedras,
Brigando com pedra na mão,
Sem prédica, sem sermão,
No sertão Pedro cresceu.  

Mas sempre sonhava
Em brincar na preamar.
E colhia pedregulho,
(sonhando que eram conchas),
E fingia dar mergulhos
No rio seco, de pedras
(fingindo que eram ondas,
Sonhando que era o mar).

Despreparado, desprecatado.
Em desapreço, o preço
De crescer num pedregal,
Pedro tão logo aprendeu.

Cedo, a alma depredada
Teve Pedro, pois o pai,
Quase sempre sem emprego,
Na preguiceira pregado,
Espreitando o chão empedrado,
De preguiça ou “depressão”,
( coisa muito estranha então)
Despercebido, da vida
Depressa se desprendeu.

E Pedro que então pensava
(ser o céu um mar imenso,
Uma praia de areias brancas,
Pedia pra ir também).

Da mãe guardou para sempre
O olhar preto, profundo,
Sem prazer nenhum no mundo.

A trabalhar todo dia,
Adentrando pela noite,
Com o pé na premedeira
E a mão na pregueadeira,
O rosto todo pregueado,
Com mais pregas que as pregas,
Que com sua mão tecia.

Talhada em pedra,  tal e qual
Pedra de toque, pedernal,
De pedra
Em pó se desfez.

Pedro sem sequer chorou.
Naquela terra infernal,
Onde só pedra chovia,
Endurecia até lágrima
Qual pedregulho miúdo.

E Pedro
 E pedra se fez.

Mas nunca deixou de sonhar.
À noite tinha visões
De prados tão verdejantes,
Com ramas longas, ondeantes,
Como as ondas do mar.

Foi pedreiro
Em pedreira,
Muita pedra carregou.
Procurou pedra preciosa,
Até que em pedra de lei,
Afiando alma e navalha,
Pedro venceu a batalha.

Nessa estrada pedregosa
Era Pedro um pedreste,
Mais um no caminho agreste.

Este sem, diria Drummond:
“Tinha uma pedra no meio do caminho.”
E sem apreender a poesia,
Pedro que nem mesmo lia,
Diria com o poeta também:
_No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha não: tem. Como tem.

Mas Pedro
Ainda pedia,
premente de amor,
que um dia
alguém surgisse,
e Maria
qual pedra de cantaria,
 cheia de prendas
e rendas,
que com seu tear tecia,
Pedro Pedroso prendeu.

Qual pedra de raio caída,
De surpresa em sua vida,
 Foi que Pedro amou Maria.

E pedra sobre pedra,
Trazida da pedranceira,
Preparava pra Maria
Uma casinha de pedra.

À noite, cansado, Maria premia
E, no abraço,
O cansaço
 do dia
 esquecia.

Maria, já prenhe,
Mais linda, chamava
A menina que viria:
Luzia.


Prenome?
Pregunta o quê?
O nome, falou o padre.
Olhou Pedro pra Maria,
Que uma santa parecia.
Olhou pra imagem de pedra,
Que também era Maria,
E, baixinho, em tom de prece,
Pedro o nome pronunciou:
Maria...

Foi assim que em certo dia,
Em certo lugar no sertão,
Em chão incerto de pedra,
Do amor
Uma flor
Brotou,
E  entre pedras cresceu,
Bonita que nem Maria,
E como Pedro fazia,
Sonhava longe, distante,
Com lugares verdejantes,
Tão bonitos, junto ao mar.





quarta-feira, 8 de julho de 2015

CHUVA COLORIDA

Já pensou se chovesse colorido?
Seria lindo e alegre...
E se as cores escorressem com a chuva?
Seria complicado.
Mas não chove colorido, chove cinza,
Porque as nu
vens estão cinza, o céu está cinza...

Ainda bem que só estão, não são.
Na verdade, nem chover chove.
Só respingou chuviscos
Aqui e ali...
Só.
Adoraria saber pintar.
Como não sei, escrevo,
mais ou menos.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

ANIVERSÁRIO

Que teu coração seja amoroso e grande, mas cauteloso e não perca o discernimento.
Que tua  mente esteja atenta, em comando, sem ser controladora.
Que tuas palavras sejam firmes, mas que não sejam duras.
Que teu olhar seja suave, mas sem perder  a clareza.
Que teu riso seja leve sem ser tolo.
E o amor, ao surgir, te surpreenda, mas não te prenda, pois o amor não tem grilhões
Ele liberta o melhor que há em nós.
Saberás reconhecê-lo, pois seu rosto é inconfundível e belo.
Na dúvida, toma decisões mesmo que incertas, pois a procastinação trava  e entrava.
Deixa que a música da vida inspire teus passos e dança com graça.
A vida é uma graça e um presente de nossos pais para nós.
Sejamos um presente para eles.
A vida é como a onda no mar:
Tem seus fluxos e refluxos.
Aproveita os fluxos e te espraia como uma criança que brinca na praia,
E, no refluxo, deixa-te levar, pois tudo faz parte de tudo.
Aproveita bem tua vida,
Deixa-te ir em teu próprio ritmo,
Pois cada um tem sua música
E seu jeito de dançar.

Feliz aniversário, querida neta.



segunda-feira, 22 de junho de 2015

DEPRESSÃO


Depressão pode ser comparada a um dia de cerração densa, a um cobertor tramado com cinzas e gelo: úmido e frio. 
Depressão é caminhar
perdido em meio a um espesso nevoeiro.
O deprimido se assusta de si mesmo, porque não se reconhece mais no vulto que se curva sob o peso de algo invisível e, no entanto, tão denso. 


quinta-feira, 18 de junho de 2015

ALMA BAILARINA


Quando eu era menina sonhava ser bailarina. 
Tanto que aos dois anos, ao fazer piruetas na janela, caí. Da experiência fiquei com uma cicatriz no queixo para a vida inteira.
Hoje me contento apenas em caminhar, apoiada em uma bengala.
Se caminhar cansa, dançar, então, nem pensar.
Mas ...
minha alma é bailarina e ainda se encanta e jamais deixará de dançar e cantar.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

POEMA - LIBERTAÇÃO

Meu poema é como um bicho
Selvagem, vivo, indomado,
Um alazão preso a arreios,
um leão ruivo, enjaulado,
rugindo de dor e anseio.

Meu poema é meu grito,
Galopando campo afora...

Meu poema sou eu mesma:
Selvagem... domesticada,
Travada, não sossegada,
Segura por rédeas duras,
Como se fosse loucura
O querer se libertar.

Meu poema é minha palavra,
Segura por rédeas duras,
Que quando solto tão pouco,
Me mostra rebelde ou louca,
Mas transparente e pura.

Meu poema é um som rouco
A subir pela garganta,
Que ora chora ora canta.
Meu poema é minha fera
Que se quer soltar. Pudera!

Meu poema é minha alma
Que ainda dança
Livre e solta,
Que mão nenhuma segura
Por mais forte, firme e dura.

Vou, na palavra, a galope,
Além do horizonte,
Sem pontes,
Sem me deter
Sobre os montes.

Meu poema é minha alma,
Um alazão livre, belo,
De longas crinas revoltas,
Sem rédeas, dono, sem sela.
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Escrito em 1971, mais ou menos por aí.
O que interessa é que me mostra como eu sentia na época.
A metáfora escolhida tem a ver com minha antiga paixão por estes belos animais.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

FELICIDADE - UM ESTADO DE GRAÇA


Andei estes dias estranhamente ausente. Sem energia, emoção e risos.
Sempre fui intensa e esta ausência de sentir era estranha para mim. Sentia-me esvaziada.
Tentei encontrar uma imagem que representasse este estado de ser.
Eu me via como uma maratonista na pista, só que em último lugar. Não havia como alcançar os outros, muito menos ultrapassá-los. Sentia o desalento dos que perderam a corrida. Pensei: para que correr se não chegarei a lugar algum?
Ou seja: para que viver?
Mas sempre reflito sobre o que sinto. Quero entender. Decifrar-me.
Alguém me disse que a felicidade era subjetiva. Conclui, depois de pensar muito, que não, pelo menos não era o que eu achava. Subjetivas são as coisas que nos dão prazer, que nos fazem rir ou ficar tristes. Felicidade é o estado de ser que faz com que nos sintamos bem, ainda que não tenhamos estas coisas, ainda que sejamos o último na corrida, simplesmente por fazer parte dela.

Felicidade deve ser isto: este sentir-se grata simplesmente por  estar aqui, vivos.