quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ETERNO PRESENTE

Não há passado nem futuro onde me encontro agora.
Eu me equilibro da linha tênue que divide o milésimo de segundo passado e o milésimo de segundo futuro.
O instante que passou já é lembrança; e o instante seguinte pertence ao que há de vir, e pronto.

Ainda que a imagem que contemplo pela janela seja a mesma de antes e de depois, o olhar que contempla nunca mais será o mesmo. O que eu sentir e pensar determinará meu olhar.
Estou em eterna mudança no eterno presente em que vivo.
A paisagem vista através da janela do trem não se move e modifica no instante em que a absorvo. 
Eu é que me transformo e me movo enquanto a atravesso.

PACIÊNCIA

Hoje ao acordar, lembrei que havia deixado a pia cheia de louças para lavar na cozinha.
Uma preguiça acompanhada de mau humor me acompanhou arrastando os pés até a cozinha.
Aí me ocorreu meu pedido de Natal, quando cada um de nós, na família, fez o seu. Era: que eu tenha mais paciência comigo, com os outros, com a vida. Pedi também por  mais justiça no mundo.
Então pensei em pôr em prática, pois não basta pedir: é preciso agir. E comecei a lavar a louça num ritmo lento, sem atropelar, como faço sempre e, repetindo uma oração, a velha e conhecida de todos nós. No final usava o refrão: Daí-me paciência, Senhor.
Ao terminar, satisfeita por haver conseguido não só manter a calma, mas por sentir-me estranhamente pacificada, acrescentei ao meu pedido de Natal:
Dai-me paciência, Senhor, mas principalmente, ajuda-me a ter paciência com a injustiça.
E que eu não julgue os outros e nem a mim, tentando apenas fazer a minha parte: melhorar como ser humano.


domingo, 4 de janeiro de 2015

PASSAGEIRO DA ETERNIDADE

Não pense demais
Sobre tudo.
Sobretudo, 
não tente entender
tudo.;
apenas contemple,
medite
e aceite,
simplesmente,
o que não pode compreender.

Você é como a onda
que se espraia 
e recua,
num eterno vai e vem, 
de volta para o oceano.

Você é como a nuvem
que se forma
e se dissolve
em chuva,
e sobe 
para o céu,
de onde veio,
em nuvem.

Você é o
viajante 
do céu
a passeio
pela Terra.

Então...
passeie,
contemple,
apenas contemple,
com prazer
ou sonolento,
atento ou distraído,
como o faz
o passageiro,
o olhar debruçado
na janela do trem.

E lembre 
sempre
que é apenas 
passageiro
que passa
depressa
pela eternidade.

Boa viagem.




sábado, 27 de setembro de 2014

NA FALTA DO ABRAÇO.

"Abraço é cuidado mudo. 
É a forma que encontramos de dizer: tudo vai ficar bem, sem palavras. 
É proteção para pesadelos infantis, porta aberta para corações fechados. 
É revelar sentimentos sem fazer estardalhaço. 
É encontrar o caminho sem pedir informação. 
Aconchego, morada, calor que vem do tum tum tum do coração e acalenta a alma. 
Eu sou grude, todo mundo sabe e aqueles que meus braços não alcançam, eu abraço com palavras."
Ílé Ásé Íyámí Ómí Tútú

Penso que a palavra surgiu da timidez de nossos braços, da frouxidão de nosso abraço.
Surgiu talvez de nosso constrangimento, do temor da rejeição, da incerteza de nosso gesto.
E foi assim que aprendi a enfeitar com palavras o que de outro jeito não ousava dizer.
"O poeta é um fingidor..." Ou, parafraseando: um FINGIMOR... finge que é amor o amor que deveras sente.
Não, não é. É um tímido apenas ou quem sabe tem braços curtos e um longo palavreado que aprendeu a tecer na solidão.
O poeta é um solitário, não um fingidor.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

ATRAVÉS DA JANELA

ABRE A CORTINA
DESCORTINA...
AVENTURA TEU OLHAR
PRA LÁ DE TUA JANELA.

QUE NÃO TE DETENHA
O MEDO
DAS ALTURAS
E DOS ESPAÇOS.

VAI... 
ESVOAÇA

ENQUANTO VIVES.
VAI... 
QUE A VIDA...
A VIDA PASSA
E,
QUANDO JÁ SE VÊ,

PASSOU.

VAI.
ESCANCARA 
TEU OLHAR.

ABRE A JANELA.














domingo, 8 de junho de 2014

VENTO

O vento
Desfolha
Pétalas.
Desmancha
Cabelos.
Espalha
Orações
E canções.
O vento é
É um poema
Sem rima,
É um uivo,
Gemido
De uma alma
Que chora.

Entre o sono
E a manhã
Eu o escuto
A bater.
Eu pergunto
‘Quem bate’
Me responde
Um lamento
‘É o vento
É o vento.’


sexta-feira, 6 de junho de 2014

CHUVA E FRIO












     
Há quanto tempo não escrevo...
Chove uma chuva miúda, fina, destas que entram pelas frestas da alma da gente...

Desisto.
Poema nem sempre é feito de palavras.
Pode ser uma imagem
Ou uma canção silenciosa e sem melodia,
Apenas som, cor e luz,
Mais nada.


Meu olhar é uma janela
E eu me debruço nela
Em estado de graça.

O bom da chuva, quando é fina e fria, é estar de dentro, aquecida, olhando para ela. 
O bom do frio é sentar em frente à lareira, 
escutando o crepitar das chamas, 
o estalar da madeira a queimar.
Bom mesmo é este se perder no contemplar.
É se deixar estar sem fazer nada.
O poema de hoje é a própria chuva.