domingo, 30 de agosto de 2015

PARA A KIKITA



Sonho contigo em um jardim distante,
brincando em gramados macios bordados de
Flores de mil cores transbordantes.
Sonho contigo em manhãs douradas,
e céu de azul intenso,
a brisa ligeira te afagando o pêlo.

Sonho contigo em
Cama de nuvens,
Dossel de estrelas e neblina,
Água pura de fonte cristalina,
Ração com sabor de chocolate.

Sonho contigo em
Caminhos largos,
Passeios longos,
leve a correr.



Sonho contigo em liberdade.

Que se desatem os laços
Que te prendiam à coleira da vida.

Que se rompa a fita de prata
Que conduzia teu espírito
Em um pequeno corpo branco e negro
E enfim retornes
Aos campos do Senhor.



Escrito em
Abril 2004.
com a cachorrinha rosa que dei para ela e que pensava ser sua filha.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

ESTAÇÃO DE TREM








ESTAÇÕES.

A vida lembra uma estação de trem.

Gente entrando e saindo dos vagões.
Uns chegando,
Outros partindo.
E abraços.
Sorrisos dos que vão a passeio.
Acenos...
E cenas 
de quem fica, quando alguém vai
sem saber se irá voltar.


As mãos
Lembram  pássaros acenando
Em despedida.
Ansiando por seguir com os que partiram,
Pedindo pra ficar com os que não foram.


Versinhos de um tempo bem atrás.

SOLIDÃO





Pela rua silenciosa
Passeia
Minha solidão

Sou uma sombra
Que passa

Sem peso,
Sem som,
Sem chão.

Suspensos
Meus passos
Não chamam atenção.

Eu passo
Não piso,
Deslizo
Pegadas
não deixo
Na rua de asfalto,
Barulho de saltos
não há.



A noite se adensa
As luzes acendem
Nas casas.

Invade
O olhar
Curioso,
Através das janelas.

Abertas, iluminadas,
São olhos escancarados
Em pura contemplação.



Em qual delas te escondes
Onde te ocultas de mim?

Onde?
“Onde” escuto,
Fora ou dentro,
Não sei.

Não sei se ouço
Ou se sinto.

É um sussurro


Ah!
Sou eu

Que ainda chamo por mim.

IPÊS ENGANADOS



David Coimbra escreveu sobre “os ipês enganados”. E diz que considera isso grave.
Eu também.
E também me sinto enganada. Me vesti de inverno e o verão me surpreendeu na rua.
Mas não é só por isso.
Me assusta esta imprevisibilidade no clima, em tudo. Não gosto de mudanças, de improvisos. E como disse o Davi:

“Não sei se nosso futuro será florido ou árido, mas fico assustado com o presente em que até os ipês são enganados.”

domingo, 9 de agosto de 2015

FRASE DE ALGUÉM

"A sombra dos bambus
Varre os degraus de pedra
Sem levantar poeira."
  
acho linda esta frase, mas não lembro o autor. 
lembro ainda do dia em que foste fotografada no jardim botânico para teus 15 anos. os bambus e a pontezinha.






quinta-feira, 23 de julho de 2015

PEDRO








PEDRO

Prenome?...
Pregunta o quê?
O nome, falou o padre.
Despreocupado Pedroso,
Na premência pronunciou:
Pedro... Pedro Pedroso.
E assim Pedro se chamou.

Sem pedologia (ou pedagogia)
Como o nome predizia:
Muita pedrada levou.

Com pedregulho brincava
Num leito seco de rio,
Fingindo que era mar.

Nascido entre as pedras,
Brincando com pedras,
Brigando com pedra na mão,
Sem prédica, sem sermão,
No sertão Pedro cresceu.  

Mas sempre sonhava
Em brincar na preamar.
E colhia pedregulho,
(sonhando que eram conchas),
E fingia dar mergulhos
No rio seco, de pedras
(fingindo que eram ondas,
Sonhando que era o mar).

Despreparado, desprecatado.
Em desapreço, o preço
De crescer num pedregal,
Pedro tão logo aprendeu.

Cedo, a alma depredada
Teve Pedro, pois o pai,
Quase sempre sem emprego,
Na preguiceira pregado,
Espreitando o chão empedrado,
De preguiça ou “depressão”,
( coisa muito estranha então)
Despercebido, da vida
Depressa se desprendeu.

E Pedro que então pensava
(ser o céu um mar imenso,
Uma praia de areias brancas,
Pedia pra ir também).

Da mãe guardou para sempre
O olhar preto, profundo,
Sem prazer nenhum no mundo.

A trabalhar todo dia,
Adentrando pela noite,
Com o pé na premedeira
E a mão na pregueadeira,
O rosto todo pregueado,
Com mais pregas que as pregas,
Que com sua mão tecia.

Talhada em pedra,  tal e qual
Pedra de toque, pedernal,
De pedra
Em pó se desfez.

Pedro sem sequer chorou.
Naquela terra infernal,
Onde só pedra chovia,
Endurecia até lágrima
Qual pedregulho miúdo.

E Pedro
 E pedra se fez.

Mas nunca deixou de sonhar.
À noite tinha visões
De prados tão verdejantes,
Com ramas longas, ondeantes,
Como as ondas do mar.

Foi pedreiro
Em pedreira,
Muita pedra carregou.
Procurou pedra preciosa,
Até que em pedra de lei,
Afiando alma e navalha,
Pedro venceu a batalha.

Nessa estrada pedregosa
Era Pedro um pedreste,
Mais um no caminho agreste.

Este sem, diria Drummond:
“Tinha uma pedra no meio do caminho.”
E sem apreender a poesia,
Pedro que nem mesmo lia,
Diria com o poeta também:
_No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha não: tem. Como tem.

Mas Pedro
Ainda pedia,
premente de amor,
que um dia
alguém surgisse,
e Maria
qual pedra de cantaria,
 cheia de prendas
e rendas,
que com seu tear tecia,
Pedro Pedroso prendeu.

Qual pedra de raio caída,
De surpresa em sua vida,
 Foi que Pedro amou Maria.

E pedra sobre pedra,
Trazida da pedranceira,
Preparava pra Maria
Uma casinha de pedra.

À noite, cansado, Maria premia
E, no abraço,
O cansaço
 do dia
 esquecia.

Maria, já prenhe,
Mais linda, chamava
A menina que viria:
Luzia.


Prenome?
Pregunta o quê?
O nome, falou o padre.
Olhou Pedro pra Maria,
Que uma santa parecia.
Olhou pra imagem de pedra,
Que também era Maria,
E, baixinho, em tom de prece,
Pedro o nome pronunciou:
Maria...

Foi assim que em certo dia,
Em certo lugar no sertão,
Em chão incerto de pedra,
Do amor
Uma flor
Brotou,
E  entre pedras cresceu,
Bonita que nem Maria,
E como Pedro fazia,
Sonhava longe, distante,
Com lugares verdejantes,
Tão bonitos, junto ao mar.





quarta-feira, 8 de julho de 2015

CHUVA COLORIDA

Já pensou se chovesse colorido?
Seria lindo e alegre...
E se as cores escorressem com a chuva?
Seria complicado.
Mas não chove colorido, chove cinza,
Porque as nu
vens estão cinza, o céu está cinza...

Ainda bem que só estão, não são.
Na verdade, nem chover chove.
Só respingou chuviscos
Aqui e ali...
Só.
Adoraria saber pintar.
Como não sei, escrevo,
mais ou menos.