domingo, 4 de janeiro de 2015

PASSAGEIRO DA ETERNIDADE

Não pense demais
Sobre tudo.
Sobretudo, 
não tente entender
tudo.;
apenas contemple,
medite
e aceite,
simplesmente,
o que não pode compreender.

Você é como a onda
que se espraia 
e recua,
num eterno vai e vem, 
de volta para o oceano.

Você é como a nuvem
que se forma
e se dissolve
em chuva,
e sobe 
para o céu,
de onde veio,
em nuvem.

Você é o
viajante 
do céu
a passeio
pela Terra.

Então...
passeie,
contemple,
apenas contemple,
com prazer
ou sonolento,
atento ou distraído,
como o faz
o passageiro,
o olhar debruçado
na janela do trem.

E lembre 
sempre
que é apenas 
passageiro
que passa
depressa
pela eternidade.

Boa viagem.




sábado, 27 de setembro de 2014

NA FALTA DO ABRAÇO.

"Abraço é cuidado mudo. 
É a forma que encontramos de dizer: tudo vai ficar bem, sem palavras. 
É proteção para pesadelos infantis, porta aberta para corações fechados. 
É revelar sentimentos sem fazer estardalhaço. 
É encontrar o caminho sem pedir informação. 
Aconchego, morada, calor que vem do tum tum tum do coração e acalenta a alma. 
Eu sou grude, todo mundo sabe e aqueles que meus braços não alcançam, eu abraço com palavras."
Ílé Ásé Íyámí Ómí Tútú

Penso que a palavra surgiu da timidez de nossos braços, da frouxidão de nosso abraço.
Surgiu talvez de nosso constrangimento, do temor da rejeição, da incerteza de nosso gesto.
E foi assim que aprendi a enfeitar com palavras o que de outro jeito não ousava dizer.
"O poeta é um fingidor..." Ou, parafraseando: um FINGIMOR... finge que é amor o amor que deveras sente.
Não, não é. É um tímido apenas ou quem sabe tem braços curtos e um longo palavreado que aprendeu a tecer na solidão.
O poeta é um solitário, não um fingidor.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

ATRAVÉS DA JANELA

ABRE A CORTINA
DESCORTINA...
AVENTURA TEU OLHAR
PRA LÁ DE TUA JANELA.

QUE NÃO TE DETENHA
O MEDO
DAS ALTURAS
E DOS ESPAÇOS.

VAI... 
ESVOAÇA

ENQUANTO VIVES.
VAI... 
QUE A VIDA...
A VIDA PASSA
E,
QUANDO JÁ SE VÊ,

PASSOU.

VAI.
ESCANCARA 
TEU OLHAR.

ABRE A JANELA.














domingo, 8 de junho de 2014

VENTO

O vento
Desfolha
Pétalas.
Desmancha
Cabelos.
Espalha
Orações
E canções.
O vento é
É um poema
Sem rima,
É um uivo,
Gemido
De uma alma
Que chora.

Entre o sono
E a manhã
Eu o escuto
A bater.
Eu pergunto
‘Quem bate’
Me responde
Um lamento
‘É o vento
É o vento.’


sexta-feira, 6 de junho de 2014

CHUVA E FRIO












     
Há quanto tempo não escrevo...
Chove uma chuva miúda, fina, destas que entram pelas frestas da alma da gente...

Desisto.
Poema nem sempre é feito de palavras.
Pode ser uma imagem
Ou uma canção silenciosa e sem melodia,
Apenas som, cor e luz,
Mais nada.


Meu olhar é uma janela
E eu me debruço nela
Em estado de graça.

O bom da chuva, quando é fina e fria, é estar de dentro, aquecida, olhando para ela. 
O bom do frio é sentar em frente à lareira, 
escutando o crepitar das chamas, 
o estalar da madeira a queimar.
Bom mesmo é este se perder no contemplar.
É se deixar estar sem fazer nada.
O poema de hoje é a própria chuva.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

NORMOSE

 "O normótico padece de falta de empenho em fazer florescer seus dons e enterra seus talentos com medo da própria grandeza, fugindo da sua missão individual e intransferível. Quando temos necessidade de, a todo custo, ser como os outros, não escutamos nossa própria vocação". 
Cheguei à assustadora conclusão que fiz parte deste bando de normóticos até quase agora. Enterrei meus talentos e, o pior, é que não sei onde. Cavoco, cavoco e não encontro aquela que eu seria se não tivesse negado quem sou.

Onde está o sentido de minha vida?
Se não sou eu mesma, quem serei então?
E meus talentos? Que ventos levaram?
Em que me tornei, se não sou quem sou?




terça-feira, 1 de abril de 2014

OUTONO CINZA

O céu está de uma cor só
cor de pó,
cor de poeira.

Penso que todas as respirações 
se juntaram
e num suspiro único e abafado
cobriram o céu 
de cinza.

Um chuvisqueiro cai
tão lento
e indeciso
que não chega a molhar.

Ainda tenho na testa o suor
de ontem.
E na lembrança
o calor abrasador do verão.

Anseio pelo alivio
do frio
que não chega.