domingo, 14 de julho de 2013

TERAPIA DA PALAVRA



"Escrever pode ser uma forma de descarregar a angústia e de colocar (ao menos no papel) ordem no caos do mundo interno. Porque a palavra é um instrumento terapêutico, é o grande instrumento da psicanálise(...) 
É terapia sim, e é terapia prazerosa, acessível a todos. O que, em nosso tempo, não é pouca coisa".
Trecho da crônica Literatura como Tratamento. Moacyr Scliar.


Escrever também é uma forma de pintar uma tela fazendo uso da palavra. É uma forma de descrever a beleza, deixando ao leitor a chance de, ao imaginar uma cena, criar seu próprio quadro mental, inspirado por quem escreveu. Segundo sua própria vivência e através de seu olhar e imaginação, o leitor torna-se um co-criador.
A palavra tem liquidez ou dureza. É áspera ou suave. A palavra tem cor e textura.
Ela nos expõe e também nos revela e liberta.
Guardá-la é como aprisionar o pássaro cantor que habita em nós.
Libertá-la é permitir seu vôo. É oferecer ao mundo sua canção.

  Imagem modificada por mim no fotoshop. 

sábado, 6 de julho de 2013

UNIDADE



Eu não escolho nenhum caminho,
porque o caminho limita minha direção.
Eu não caminho; vôo,
porque do alto vejo além das fronteiras
traçadas pelos homens.
Não defendo nenhuma causa,
porque assim nego e ofendo todas as outras.
Não abraço um grupo apenas,
porque assim rejeito os demais,
e me divido
e me afasto da unidade
da qual sou parte.
Assim como cada átomo do meu corpo 
faz parte do meu ser,
faço parte de tudo 
e tudo vive em mim.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

VENTO


"As vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."
Fernando Pessoa



O vento parou...
O poema parou...

O pensamento
ficou suspenso,
sem pouso,
pálido e tenso.

A palavra passou,
perdeu-se,
sem ser proferida.

E o aperto no peito
não passou...
permaneceu
em mim.

Estes dias, assim,
de mormaço
me amordaçam.

Este ar parado
paralisa o pensar,
poda a poesia
antes de florir.
.

Sou um pássaro cantor.

Na ventania.
Sem ar sufoco,
Não canto,
calo.

Prefiro o vento,
Que desnorteia,
Despenteia,
Desintegra e
Divide,
Mas me move.

Prefiro tudo,
Tempestade,
Tormenta,
A este tempo paralítico,
Apático,
Pálido- cinza,
Suspenso no ar,

Irrespirável.

Prefiro o uivo do vento 
Na fresta da janela,
Do que esse silêncio,
Do que esta espera
Por algo
Que não se sabe
E que não vem.



Escrito num desses dias estranhamente quietos, antes da chuva.
Vânia.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

FELICIDADE



Há duas escolas na tradição filosófica.
Para os ingleses, a felicidade é o objetivo da vida e todos têm direito a ela. Uma ação deve ser moralmente boa, pois assim poderá haver mais felicidade no universo. Se não, é má.
Para Kant e os republicanos franceses a ação moral não deve necessariamente buscar a felicidade. É a ação desinteressada. Além do mais, a felicidade é uma idéia sem sentido, porque não pode ser definida.O que serve para um, não serve para outro. O que torna alguém feliz, faz com que outros sejam infelizes, ou indiferentes.
Os seres humanos não conhecem um estado de felicidade estável. Quando muito alcançam momentos de graça e serenidade. O melhor seria, segundo Luc Ferri, dizer a nossos filhos.que uma vida boa é, antes de tudo, uma vida inteligente e livre, e que depende de muitos esforços e trabalho.

Eu já penso que a felicidade existe, assim como Deus deve existir, mas não a alcançamos, porque a buscamos fora de nós. Ainda não aprendemos a nos bastar, a descobrir em nós a fonte da felicidade.
Talvez não possamos defini-la, mas isto não a torna uma idéia sem sentido. Seria como dizer que Deus é uma idéia sem sentido. Penso que afirmá-lo é de, certa forma, pretencioso. 
Dizer que uma vida relativamente feliz pode ser alcançada com esforço e trabalho parece incoerente, pois a felicidade é oferecida aos que estão abertos para recebê-la, aos simples ou, talvez, muito sábios. 
O filósofo fala que é possível alcançar momentos de graça e serenidade. É... os que conseguem manter a serenidade, mesmo em momentos difíceis, estes, pode-se dizer que alcançaram a felicidade. 
Nós, os humanos e demasiado humanos, temos de nos contentar com momentos de graça e serenidade.
Felicidade estável existe sim, eu acho, mas não aqui, nesta dimensão. Em outra, quem sabe...
Vânia. 

Nota - Luc Ferry é filósofo, professor e ex-ministro da Educação da França. Autor de alguns livro, como Aprendendo a Viver, O que é uma vida bem sucedida...
Basseei-me no texto "Além do prazer do consumo" de Marcelo Paes, revista Planeta, junho de 2013.

sábado, 22 de junho de 2013

AMOR INTRANSITIVO



O amor em si... não direcionado é passivo.
Dinamicamente passivo.
Basta-se.
É uma bênção para o fulcro,
O centro de sua irradiação
E uma bênção também para os que dele se aproximam.

No estado de amor
O sujeito não ama uma pessoa ou coisa.
Ele ama intransitivamente.

E os que lhe acercam
Ou com ele vivem,
Beneficiam-se do seu influxo.

Ele ama incondicionalmente
Bons e maus
Justos e injustos.



 Mateus 5-45.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A PAZ QUE EU QUERO


Volnyr Santana

Não quero mais estar em outro lugar.
Não espero que nada novo aconteça.
Não procuro a próxima curva.
Nem a próxima colina.
Estou aqui agora

E isto basta.

Trecho do filme "Terra das sombras", se não me engano.

Isto me inspira a dizer

Quero estar
finalmente
aqui,
onde cheguei,
sem saber como.
Estou naquele momento
em que preciso reconhecer 
o terreno por onde andam meus passos.
Não quero curvas inesperadas
para não derrapar por elas.
Quero andar por caminhos seguros
já palmilhados
por meus passos incertos.
Não quero a surpresa
nem a novidade.
O que tenho me basta
e o conhecido acalma.
Cansei do susto
e o inesperado interrompe
a rotina de paz estabelecida.
Posso andar por aí...
até posso...
mas,
na volta,
quero, 
ao abrir minha janela,
reencontrar a mesma paisagem
apenas tingida de claro e escuro,
de vermelho e ouro dos fins de tarde,
ou cinza dos dias de chuva.
É o que quero agora
para mim
e isto basta.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

DEUS



Voltaire, filósofo iluminista francês, era conhecido por sua perspicácia, espirituosidade e por ser um escritor polêmico, satírico, que criticava a Igreja Católica e instituições francesas da época. No entanto não era ateu.
Acreditava na possibilidade da existência de Deus e na necessidade de Deus existir.
Voltaire disse: "Se é muito presunçoso adivinhar o que Ele é e por que Ele fez tudo o que existe, parece-me também muito presunçoso negar que Ele existe."

E concluiu: “ Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”.
Um dia, sem jamais haver lido estas frase, vei-me à mente frase semelhante a anterior, enquanto martelava em minha cabeça a pergunta: Deus existe? E escrevi um poema, mais ou menos assim:

Eu não O vejo
mas Ele se revela na perfeição
das infinitas formas e cores que compõem a vida.
Eu não O escuto,  
mas Ele sussurra no vento
na chuva que cai,
no rio que corre,
no mar que ruge,
no grito do recém-nascido.

Eu não encontro palavras que o descrevam,
porque o limitado não pode falar do que é sem limites.
Eu não o vejo,
porque meus olhos habitam esta dimensão entre brumas e luzes.
Não o escuto,
porque meus ouvidos não alcançam oitavas e frequências tão altas.

Mas eu O sinto, quando minha respiração se acalma e aprofunda,
e O escuto nas batidas do meu coração, quando ele se agita e emociona.
diante de algo de uma profunda beleza.
Eu O vejo, quando um sentimento de amor imenso e incomparável, generoso,
me arrebata 
para além do que é humano
em mim.

.