sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

SENHORA DO TEMPO E DO ESPAÇO





Sou senhora do tempo e do espaço.
Meu mundo eu crio,
Meu tempo eu faço
do tamanho exato de que preciso.

Meu mundo transformo 
a partir do mundo dos grandes
em um lugar sem limites
e mágico.

A cadeira da vovó,
imensa, macia, aconchegante,
é uma carruagem, um trenó,
que me conduz a lugares 
inimagináveis
para quem não tem meu poder.

Reinvento o mundo
a partir do que sei
de lembranças de outras vidas.

Debaixo da mesa é minha casa,
uma caverna talvez.
Há perigos "lá fora",
mas estou protegida,
pois vovó guarda a entrada
como um grande guardião,
e mamãe virá logo
com seus longos braços
que me hão de alcançar.

O que elas não sabem
é que sou senhora do tempo e do espaço, 
meu mundo eu faço,
meu tempo eu traço
circular.
No centro, eu, amada,
em volta, o amor
do papai,
da mamãe e
da vovó.

Fiz para a Victoria, enquanto ela brincava de "princesa", aos três anos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

JULGAMENTOS

        Marco Aurélio, o filósofo imperador, em Meditações, diz: “Abandone o julgamento e estará salvo”. ... “Tudo é feito pelo pensamento, portanto controle seu pensamento. Remova seus julgamentos sempre que desejar e terá paz, como quando o marinheiro contorna o litoral e encontra águas tranquilas e o abrigo de uma baía sem ondas.”
       Lembrou-me o que ouvi em uma palestra certa vez: O pior dos crimes é o julgamento. Por quê, perguntei. Porque é pelo julgamento que se cometem outros crimes.
Não esqueci isto.
       E é verdade. Sempre que julgamos é a partir de um ponto de vista e, de um ponto de vista não temos uma visão do todo. Vemos um pedacinho dele. Julgamos a partir de nossas emoções que podem estar equivocadas.
       
Deixemos isso para o Universo e suas Leis imutáveis. Deixemos para o Olhe que tudo alcança.
Enquanto isto vamos navegar em paz pela vida.


domingo, 30 de agosto de 2015

PARA A KIKITA



Sonho contigo em um jardim distante,
brincando em gramados macios bordados de
Flores de mil cores transbordantes.
Sonho contigo em manhãs douradas,
e céu de azul intenso,
a brisa ligeira te afagando o pêlo.

Sonho contigo em
Cama de nuvens,
Dossel de estrelas e neblina,
Água pura de fonte cristalina,
Ração com sabor de chocolate.

Sonho contigo em
Caminhos largos,
Passeios longos,
leve a correr.



Sonho contigo em liberdade.

Que se desatem os laços
Que te prendiam à coleira da vida.

Que se rompa a fita de prata
Que conduzia teu espírito
Em um pequeno corpo branco e negro
E enfim retornes
Aos campos do Senhor.



Escrito em
Abril 2004.
com a cachorrinha rosa que dei para ela e que pensava ser sua filha.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

ESTAÇÃO DE TREM








ESTAÇÕES.

A vida lembra uma estação de trem.

Gente entrando e saindo dos vagões.
Uns chegando,
Outros partindo.
E abraços.
Sorrisos dos que vão a passeio.
Acenos...
E cenas 
de quem fica, quando alguém vai
sem saber se irá voltar.


As mãos
Lembram  pássaros acenando
Em despedida.
Ansiando por seguir com os que partiram,
Pedindo pra ficar com os que não foram.


Versinhos de um tempo bem atrás.

SOLIDÃO





Pela rua silenciosa
Passeia
Minha solidão

Sou uma sombra
Que passa

Sem peso,
Sem som,
Sem chão.

Suspensos
Meus passos
Não chamam atenção.

Eu passo
Não piso,
Deslizo
Pegadas
não deixo
Na rua de asfalto,
Barulho de saltos
não há.



A noite se adensa
As luzes acendem
Nas casas.

Invade
O olhar
Curioso,
Através das janelas.

Abertas, iluminadas,
São olhos escancarados
Em pura contemplação.



Em qual delas te escondes
Onde te ocultas de mim?

Onde?
“Onde” escuto,
Fora ou dentro,
Não sei.

Não sei se ouço
Ou se sinto.

É um sussurro


Ah!
Sou eu

Que ainda chamo por mim.

IPÊS ENGANADOS



David Coimbra escreveu sobre “os ipês enganados”. E diz que considera isso grave.
Eu também.
E também me sinto enganada. Me vesti de inverno e o verão me surpreendeu na rua.
Mas não é só por isso.
Me assusta esta imprevisibilidade no clima, em tudo. Não gosto de mudanças, de improvisos. E como disse o Davi:

“Não sei se nosso futuro será florido ou árido, mas fico assustado com o presente em que até os ipês são enganados.”

domingo, 9 de agosto de 2015

FRASE DE ALGUÉM

"A sombra dos bambus
Varre os degraus de pedra
Sem levantar poeira."
  
acho linda esta frase, mas não lembro o autor. 
lembro ainda do dia em que foste fotografada no jardim botânico para teus 15 anos. os bambus e a pontezinha.






quinta-feira, 23 de julho de 2015

PEDRO








PEDRO

Prenome?...
Pregunta o quê?
O nome, falou o padre.
Despreocupado Pedroso,
Na premência pronunciou:
Pedro... Pedro Pedroso.
E assim Pedro se chamou.

Sem pedologia (ou pedagogia)
Como o nome predizia:
Muita pedrada levou.

Com pedregulho brincava
Num leito seco de rio,
Fingindo que era mar.

Nascido entre as pedras,
Brincando com pedras,
Brigando com pedra na mão,
Sem prédica, sem sermão,
No sertão Pedro cresceu.  

Mas sempre sonhava
Em brincar na preamar.
E colhia pedregulho,
(sonhando que eram conchas),
E fingia dar mergulhos
No rio seco, de pedras
(fingindo que eram ondas,
Sonhando que era o mar).

Despreparado, desprecatado.
Em desapreço, o preço
De crescer num pedregal,
Pedro tão logo aprendeu.

Cedo, a alma depredada
Teve Pedro, pois o pai,
Quase sempre sem emprego,
Na preguiceira pregado,
Espreitando o chão empedrado,
De preguiça ou “depressão”,
( coisa muito estranha então)
Despercebido, da vida
Depressa se desprendeu.

E Pedro que então pensava
(ser o céu um mar imenso,
Uma praia de areias brancas,
Pedia pra ir também).

Da mãe guardou para sempre
O olhar preto, profundo,
Sem prazer nenhum no mundo.

A trabalhar todo dia,
Adentrando pela noite,
Com o pé na premedeira
E a mão na pregueadeira,
O rosto todo pregueado,
Com mais pregas que as pregas,
Que com sua mão tecia.

Talhada em pedra,  tal e qual
Pedra de toque, pedernal,
De pedra
Em pó se desfez.

Pedro sem sequer chorou.
Naquela terra infernal,
Onde só pedra chovia,
Endurecia até lágrima
Qual pedregulho miúdo.

E Pedro
 E pedra se fez.

Mas nunca deixou de sonhar.
À noite tinha visões
De prados tão verdejantes,
Com ramas longas, ondeantes,
Como as ondas do mar.

Foi pedreiro
Em pedreira,
Muita pedra carregou.
Procurou pedra preciosa,
Até que em pedra de lei,
Afiando alma e navalha,
Pedro venceu a batalha.

Nessa estrada pedregosa
Era Pedro um pedreste,
Mais um no caminho agreste.

Este sem, diria Drummond:
“Tinha uma pedra no meio do caminho.”
E sem apreender a poesia,
Pedro que nem mesmo lia,
Diria com o poeta também:
_No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha não: tem. Como tem.

Mas Pedro
Ainda pedia,
premente de amor,
que um dia
alguém surgisse,
e Maria
qual pedra de cantaria,
 cheia de prendas
e rendas,
que com seu tear tecia,
Pedro Pedroso prendeu.

Qual pedra de raio caída,
De surpresa em sua vida,
 Foi que Pedro amou Maria.

E pedra sobre pedra,
Trazida da pedranceira,
Preparava pra Maria
Uma casinha de pedra.

À noite, cansado, Maria premia
E, no abraço,
O cansaço
 do dia
 esquecia.

Maria, já prenhe,
Mais linda, chamava
A menina que viria:
Luzia.


Prenome?
Pregunta o quê?
O nome, falou o padre.
Olhou Pedro pra Maria,
Que uma santa parecia.
Olhou pra imagem de pedra,
Que também era Maria,
E, baixinho, em tom de prece,
Pedro o nome pronunciou:
Maria...

Foi assim que em certo dia,
Em certo lugar no sertão,
Em chão incerto de pedra,
Do amor
Uma flor
Brotou,
E  entre pedras cresceu,
Bonita que nem Maria,
E como Pedro fazia,
Sonhava longe, distante,
Com lugares verdejantes,
Tão bonitos, junto ao mar.





quarta-feira, 8 de julho de 2015

CHUVA COLORIDA

Já pensou se chovesse colorido?
Seria lindo e alegre...
E se as cores escorressem com a chuva?
Seria complicado.
Mas não chove colorido, chove cinza,
Porque as nu
vens estão cinza, o céu está cinza...

Ainda bem que só estão, não são.
Na verdade, nem chover chove.
Só respingou chuviscos
Aqui e ali...
Só.
Adoraria saber pintar.
Como não sei, escrevo,
mais ou menos.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

ANIVERSÁRIO

Que teu coração seja amoroso e grande, mas cauteloso e não perca o discernimento.
Que tua  mente esteja atenta, em comando, sem ser controladora.
Que tuas palavras sejam firmes, mas que não sejam duras.
Que teu olhar seja suave, mas sem perder  a clareza.
Que teu riso seja leve sem ser tolo.
E o amor, ao surgir, te surpreenda, mas não te prenda, pois o amor não tem grilhões
Ele liberta o melhor que há em nós.
Saberás reconhecê-lo, pois seu rosto é inconfundível e belo.
Na dúvida, toma decisões mesmo que incertas, pois a procastinação trava  e entrava.
Deixa que a música da vida inspire teus passos e dança com graça.
A vida é uma graça e um presente de nossos pais para nós.
Sejamos um presente para eles.
A vida é como a onda no mar:
Tem seus fluxos e refluxos.
Aproveita os fluxos e te espraia como uma criança que brinca na praia,
E, no refluxo, deixa-te levar, pois tudo faz parte de tudo.
Aproveita bem tua vida,
Deixa-te ir em teu próprio ritmo,
Pois cada um tem sua música
E seu jeito de dançar.

Feliz aniversário, querida neta.



segunda-feira, 22 de junho de 2015

DEPRESSÃO


Depressão pode ser comparada a um dia de cerração densa, a um cobertor tramado com cinzas e gelo: úmido e frio. 
Depressão é caminhar
perdido em meio a um espesso nevoeiro.
O deprimido se assusta de si mesmo, porque não se reconhece mais no vulto que se curva sob o peso de algo invisível e, no entanto, tão denso. 


quinta-feira, 18 de junho de 2015

ALMA BAILARINA


Quando eu era menina sonhava ser bailarina. 
Tanto que aos dois anos, ao fazer piruetas na janela, caí. Da experiência fiquei com uma cicatriz no queixo para a vida inteira.
Hoje me contento apenas em caminhar, apoiada em uma bengala.
Se caminhar cansa, dançar, então, nem pensar.
Mas ...
minha alma é bailarina e ainda se encanta e jamais deixará de dançar e cantar.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

POEMA - LIBERTAÇÃO

Meu poema é como um bicho
Selvagem, vivo, indomado,
Um alazão preso a arreios,
um leão ruivo, enjaulado,
rugindo de dor e anseio.

Meu poema é meu grito,
Galopando campo afora...

Meu poema sou eu mesma:
Selvagem... domesticada,
Travada, não sossegada,
Segura por rédeas duras,
Como se fosse loucura
O querer se libertar.

Meu poema é minha palavra,
Segura por rédeas duras,
Que quando solto tão pouco,
Me mostra rebelde ou louca,
Mas transparente e pura.

Meu poema é um som rouco
A subir pela garganta,
Que ora chora ora canta.
Meu poema é minha fera
Que se quer soltar. Pudera!

Meu poema é minha alma
Que ainda dança
Livre e solta,
Que mão nenhuma segura
Por mais forte, firme e dura.

Vou, na palavra, a galope,
Além do horizonte,
Sem pontes,
Sem me deter
Sobre os montes.

Meu poema é minha alma,
Um alazão livre, belo,
De longas crinas revoltas,
Sem rédeas, dono, sem sela.
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Escrito em 1971, mais ou menos por aí.
O que interessa é que me mostra como eu sentia na época.
A metáfora escolhida tem a ver com minha antiga paixão por estes belos animais.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

FELICIDADE - UM ESTADO DE GRAÇA


Andei estes dias estranhamente ausente. Sem energia, emoção e risos.
Sempre fui intensa e esta ausência de sentir era estranha para mim. Sentia-me esvaziada.
Tentei encontrar uma imagem que representasse este estado de ser.
Eu me via como uma maratonista na pista, só que em último lugar. Não havia como alcançar os outros, muito menos ultrapassá-los. Sentia o desalento dos que perderam a corrida. Pensei: para que correr se não chegarei a lugar algum?
Ou seja: para que viver?
Mas sempre reflito sobre o que sinto. Quero entender. Decifrar-me.
Alguém me disse que a felicidade era subjetiva. Conclui, depois de pensar muito, que não, pelo menos não era o que eu achava. Subjetivas são as coisas que nos dão prazer, que nos fazem rir ou ficar tristes. Felicidade é o estado de ser que faz com que nos sintamos bem, ainda que não tenhamos estas coisas, ainda que sejamos o último na corrida, simplesmente por fazer parte dela.

Felicidade deve ser isto: este sentir-se grata simplesmente por  estar aqui, vivos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O TEMPO, ESTE LADRÃO DAS HORAS.



Ele chega depressa demais. Recebo sua  estranha visita, apressada como uma lufada de vento. Não  senta para descansar e, quando senta, equilibra-se na beira da cadeira, pronto para levantar. 
Quero lhe falar sobre os efeitos devastadores que tem sobre mim, mas não presta atenção às minhas reclamações, sobre as perdas que ele me traz. Recebo sua total indiferença, alheio que está sempre a meus problemas menores.
“Dê um sentido a sua vida”, parece dizer, “não espere que eu pare por você.” E levanta e sai tão depressa quanto veio. Em desespero, corro atrás dele, que me aconselha a não fazê-lo, pois será inútil.
Ele é cruel... e me deixa a contemplar minha imagem desbotada no espelho com total desolação. Aquelas marcas, manchas e vincos, quando foi que imprimiu em minha pele? Tudo culpa dele, com sua eterna pressa.
Desisti de tentar segurá-lo. Ele me escapa das mãos. Parece-me quase invisível, sem corpo, tanto que chego a duvidar de que exista. Ao mesmo tempo é denso e pesa sobre mim. Ainda assim não posso ver como ele é realmente, pois em sua rapidez, capturo apenas a imagem borrada de certas imagens fotografadas em movimento acelerado.
Fazer o quê? Amanhã vou ancorar-me no que sei ser real: minha existência do jeito que é. Em mim buscarei meu amparo, meu repouso, minha aceitação. Sentarei à janela, distraída em lembranças contentes, e talvez eu nem perceba sua passagem pela rua.
O tempo já não me surpreende mais. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A MOÇA NA JANELA

Ela tinha aquele olhar de quem olha por olhar sem ver.
Olha pela janela sem ultrapassar o peitoril... com um jeito de pássaro em repouso, sem alcançar o vôo.
Nenhum pensamento ondula a superfície plácida.
Nenhuma emoção ameaça derramar-se do vitral polido, mas seco.
A postura é suave, mas rígida em sua imobilidade.

Eu diria que é de porcelana ou cerâmica: uma destas namoradeiras tão em moda. Mas que não namora. Não se digna sequer a reparar nos passantes.
O único movimento é o do vento nos cabelos, desarrumando pensamentos, se é que os tem.








segunda-feira, 11 de maio de 2015

CHUVA

Na segunda-feira até a chuva surpreende ao descer em um ritmo novo. 
Não obedece ao  traço vertical costumeiro.
Na verdade não cai... rodopia em um valsa de minuto nos salões do céu, branco de tão lavado.
Posso imaginar dervixes em transe, rodando vertiginosamente com suas saias rodadas e molhadas de chuva. 
Segue os passos da música do vento.
Depois cai tão levemente que parece pairar no ar como asas de beija-flores invisíveis.
Cai serenamente em uma meditação silenciosa na manhã de segunda-feira.


domingo, 10 de maio de 2015

MINHA MÃE E EU


          Quando eu era criança minha mãe era para mim puro encantamento.
          Lembro de um dia, ao andar com ela de mãos dadas pela rua, de observá-la de baixo para cima e pensar em como ela era grande, forte, inteligente, perfeita, capaz de qualquer coisa por mim. 
          Ela me passava um segurança da qual até hoje sinto falta.
          Depois percebi que não era assim tão alta, nem tão forte, pois havia muita tristeza suspensa no azul de seus olhos, que faziam meu coração transbordar de lágrimas que eram dela mas também eram minhas; Percebi que sua aguda inteligência, que eu assim interpretava, pelo rápido raciocínio e pela memória prodigiosa de sua mente organizada, não alcançava certas sutilezas para me interpretar melhor. 
           Mas sei que faria tudo por mim, embora fosse, na maioria das vezes, tudo que ela queria para si mesma.
           Fui então achando defeitos, como quase sempre os filhos acham à medida que crescem. 
           Mas continuei buscando e encontrando segurança nela. Segurança que, hoje sei, não era tanta. Ela não era de admitir que fraquejava. E isto fez com que eu não visse sua fragilidade e carências.
           Precisei envelhecer para ver seu rosto no espelho, quando me observo atentamente. 
           E a vejo: nem não alta, forte, inteligente, perfeita, segura, mas amo a nós duas mesmo assim. E sinto falta, uma enorme saudade de  caminhar com ela de mãos dadas pela rua. 
         
Era um tempo de puro encantamento.

sábado, 9 de maio de 2015

SOLIDÃO

O medo da solidão é tanto
que me vou de encontro a ela,
antecipando-me
para que não me surpreenda desavisada
e vulnerável.


talvez não seja medo,
pois que estar só pode ser bom,
mas só quando se sabe que não é para sempre.

Quando o tempo passa
e quem se espera não vem,
o atraso de um minuto se transforma em horas
e nos sentimos em suspenso
no ar irrespirável.



domingo, 12 de abril de 2015

DIA DE CHUVA









Uma coisa de que gosto muito:
Escutar a chuva dedilhar canções molhadas
sobre os telhados das casas.

Gosto dos cheiros de chuva:

bolinhos recém assados,
café recém passado.

Passado tem cheiro de lembranças dobradas

nos armários do tempo.
Tempo que parece ter sido ontem:

a chuva ... a janela 

e cortinas de renda em vôos,
janelas escancaradas surpreendidas pelo aguaceiro,
e a mãe gritando: fecha a janela, guria!
Eu fecho.
A chuva e as lembranças ficam a escorrer 
lá fora.




sexta-feira, 20 de março de 2015

PENSANDO EM DEUS

Penso muito em Deus,
e me pergunto incessantemente:

Quem ou o que é Deus?
Criador do mundo?
Ou o próprio mundo?

Criador e criação, creio eu, talvez.

Penso que Deus é a verdade.
A verdade que transcende tudo,
sem começo nem fim,
em eterna expansão.

Por fim só me resta
Curvar-me diante dela... da Verdade
sem ter  a  pretensão de conhecê-la.

Deus é a verdade e
a verdade é o que é.

A verdade não pode ser relativizada pelas crenças e culturas  de um grupo.
Deus é,apesar de nosso orgulho,de nossos julgamentos, conceitos e preconceitos e de nossas pequenas opiniões, a Verdade.

 Ele é Aquele que É.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

UMA HISTÓRIA REAL

Em um seriado na TV, uma frase me fez refletir. Era: 
“O que significa quando a história se repete? Significa que você não aprendeu com ela.”
As mesmas ideias, ações, escolhas... resultam nas mesmas reações e resultados. Mudanças trazem novas possibilidades. Sempre é bom tentar mudar, melhor do que ficar repetindo o que não deu certo.
Outra frase no mesmo seriado, mais ou menos, dizia: “se o passado não deu certo, você ainda tem um futuro impecável pela frente.”

Temos um futuro por fazer, como páginas em branco a espera da história que será escrita por nós mesmos. Somos protagonistas e autores, pois a história é nossa. somos criadores do nosso destino, pois a partir de certo ponto, as escolhas passam a ser nossas, até mesmo a de lidar com aquelas que não pudemos fazer. 
Livrar-se da culpa pelo que fizemos ou deixamos de fazer rouba a energia, que nos resta ainda, para fazer o que pode ser feito.
Buscar culpados implica ficar atrelados a um passado que, por envolver outros, não pertence a nós somente, e por isso nem podemos entender. podemos reconhecê-los, mas não perder tempo julgando-os. Isto exaure nossas energias e não muda o que passou.
Construir uma nova história e um novo final é o que nos resta, mas não em cima de expectativas sonhadas, pois estamos construindo uma história real. Alicerces não se fixam em terrenos de nuvens. 
Deixemos os sonhos em seu lugar, no mundo dos sonhos. Deixemos os sonhos para as histórias inventadas no final do dia, para serem lidas antes de dormir.
Sonhar é bom quando não se quer viver de sonhos.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ETERNO PRESENTE

Não há passado nem futuro onde me encontro agora.
Eu me equilibro da linha tênue que divide o milésimo de segundo passado e o milésimo de segundo futuro.
O instante que passou já é lembrança; e o instante seguinte pertence ao que há de vir, e pronto.

Ainda que a imagem que contemplo pela janela seja a mesma de antes e de depois, o olhar que contempla nunca mais será o mesmo. O que eu sentir e pensar determinará meu olhar.
Estou em eterna mudança no eterno presente em que vivo.
A paisagem vista através da janela do trem não se move e modifica no instante em que a absorvo. 
Eu é que me transformo e me movo enquanto a atravesso.

PACIÊNCIA

Hoje ao acordar, lembrei que havia deixado a pia cheia de louças para lavar na cozinha.
Uma preguiça acompanhada de mau humor me acompanhou arrastando os pés até a cozinha.
Aí me ocorreu meu pedido de Natal, quando cada um de nós, na família, fez o seu. Era: que eu tenha mais paciência comigo, com os outros, com a vida. Pedi também por  mais justiça no mundo.
Então pensei em pôr em prática, pois não basta pedir: é preciso agir. E comecei a lavar a louça num ritmo lento, sem atropelar, como faço sempre e, repetindo uma oração, a velha e conhecida de todos nós. No final usava o refrão: Daí-me paciência, Senhor.
Ao terminar, satisfeita por haver conseguido não só manter a calma, mas por sentir-me estranhamente pacificada, acrescentei ao meu pedido de Natal:
Dai-me paciência, Senhor, mas principalmente, ajuda-me a ter paciência com a injustiça.
E que eu não julgue os outros e nem a mim, tentando apenas fazer a minha parte: melhorar como ser humano.


domingo, 4 de janeiro de 2015

PASSAGEIRO DA ETERNIDADE

Não pense demais
Sobre tudo.
Sobretudo, 
não tente entender
tudo.;
apenas contemple,
medite
e aceite,
simplesmente,
o que não pode compreender.

Você é como a onda
que se espraia 
e recua,
num eterno vai e vem, 
de volta para o oceano.

Você é como a nuvem
que se forma
e se dissolve
em chuva,
e sobe 
para o céu,
de onde veio,
em nuvem.

Você é o
viajante 
do céu
a passeio
pela Terra.

Então...
passeie,
contemple,
apenas contemple,
com prazer
ou sonolento,
atento ou distraído,
como o faz
o passageiro,
o olhar debruçado
na janela do trem.

E lembre 
sempre
que é apenas 
passageiro
que passa
depressa
pela eternidade.

Boa viagem.